Sou estudante do Curso de Estudos Eslavos da Faculdade de Letras de Lisboa e decidi criar este blogue, porque em Portugal, ainda se conhece pouco dos países eslavos. A minha ideia, é a criação de um espaço aberto à divulgação, à troca de informações, de experiências e ideias de tão belos países.
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14 de abril de 2010

Fiodor Dostoievsky - III Parte

Em 1864, conseguiu editar com seu irmão o jornal chamado “Epoja” (Época), onde publicou “Memórias do Subsolo”. O seu entusiasmo acabou após a morte da sua esposa, seguida pouco depois pela de seu irmão. Além disso, seu irmão Mikhail deixou uma viúva, quatro filhos e uma dívida de 25 mil rublos, tendo Dostoievsky de sustentá-los. Profundamente depressivo e viciado em jogos, acumulou enormes dívidas. Para sanar os seus problemas financeiros, fugiu para o estrangeiro, onde perdeu o restante do dinheiro que ganhara em casinos. Ali reencontrou-se com Paulina Súslova e tentou reatar o relacionamento, mas foi rejeitado.

Em 1865 começou a elaborar “Crime e Castigo”, uma das suas obras capitais, que apareceu na revista “O Mensageiro Russo”, com grande sucesso. Quando o seu editor determinou um curto prazo para que terminasse o livro, contratou Anna Grigórievna Snítkina, na época com vinte e quatro anos, a quem dedicou, em apenas vinte e seis dias, o livro “O Jogador”.O relacionamento com Anna finalmente terminou em casamento a 15 de Fevereiro de 1867.

Juntos continuaram a viajar pela Europa e em Genebra, nasceu e morreu pouco tempo depois a sua primeira filha. Em 1868 escreveu “O Idiota” e, em 1871, terminou “Os Demónios”, publicado no ano seguinte. A partir de 1873 publicou no jornal “Diário de um Escritor”, que escreveu sozinho, compilando histórias curtas, artigos políticos e críticas literárias, obtendo grande sucesso. Esta publicação seria interrompida em 1878, para dar início à elaboração do seu último romance, “Os Irmãos Karamazov”, que foi publicado em grande parte no jornal russo “O Mensageiro”.

Em 1880 participou na inauguração do monumento a Aleksandr Pushkin em Moscovo, onde proferiu um discurso memorável sobre o destino da Rússia no mundo. A 8 de Novembro desse ano, termina “Os Irmãos Karamazov”, em São Petersburgo. Morreu nesta cidade, a 9 de Fevereiro de 1881, de uma hemorragia pulmonar associada com enfisema e um ataque epiléptico. Foi enterrado no Cemitério Tijvin, dentro do mosteiro de Alexander Nevsky, em São Petersburgo. Estima-se que o funeral foi assistido por cerca de sessenta mil pessoas. Na sua lápide podem ler-se versos do Apóstolo São João, que também serviu como subtítulo de seu último romance, “Os Irmãos Karamazov”:
Na verdade, na verdade vos digo que, se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer, fica ele só; mas se morrer, dá muito fruto” – Evangelho segundo João, 12:24
Estilo
Dostoievsky necessitava de dinheiro e fora sempre apressado em concluir as suas obras, por isso dizia que não conseguia realizar o seu pleno poder literário. Mais tarde, por saber bem o que as seguintes palavras significavam, disse: “A pobreza e a miséria formam o artista”. Embora a frase pareça abrangente e generalizada, Fiódor costumou desviar-se do estilo de escritores que descreviam o círculo da família moldados na tradição e nas "belas formas", e engendrou no caos familiar os que humilhavam e insultavam. Essencialmente um escritor de mitos (e às vezes comparado por isso a Herman Melville), criou um trabalho com uma enorme vitalidade e de um poder quase hipnótico, caracterizado por cenas febris e dramáticas, onde os personagens apresentam um comportamento escandaloso, e atmosferas explosivas, envolvidas em diálogos socráticos apaixonados, a busca de Deus, do mal e do sofrimento dos inocentes.

Os seus romances são escritos num período bastante curto (por vezes apenas em alguns dias), o que permite ao autor fugir de uma das características dominantes da prosa realista: a degradação física que ocorre ao longo do tempo. As suas personagens encarnam valores espirituais que são, por definição, atemporais. Outros temas recorrentes na sua obra são o suicídio, o orgulho ferido, a destruição dos valores familiares, o renascimento espiritual através do sofrimento, a rejeição do Ocidente e da afirmação da ortodoxia russa e o czarismo. Estudiosos como Mikhail Bajtín têm caracterizado o trabalho de Dostoievsky como diferente de outros romancistas; ele parece não aspirar por uma visão única e vai além da descrição sob diferentes ângulos. Dostoievsky construiu romances cheios de força dramática em que os personagens e os opostos pontos de vista são realizados livremente, em violenta dinâmica.

O espaço e o tempo em Dostoievsky é analisado às vezes como “discreto, onde o inesperado não apenas é possível como também sempre se realiza”. Certos autores comparam o tempo e o espaço em Dostoievsky como cenas cinematográficas: o uso constante da palavra russa vdrug (de repente), que aparece 560 vezes na edição russa de “Crime e Castigo”, tem a proposta de levar ao leitor a impressão de tensão, de desigualdade e de nervosismo, elementos característicos da estrutura das suas obras. Além da palavra vdrug em “Crime e Castigo”, a sua literatura utiliza muito os números, às vezes usando-os com uma extrema precisão: a dois passos...., duas ruas a direita, como também usa números elevados e redondos (100, 1000, 10000). Acredita-se que esses elementos são "mito-poéticos": “Crime e Castigo” possui sete partes (6 partes e o epílogo), sendo que, na composição do romance, ele é dividido em 7 capítulos (cada parte), e a "hora fatídica" é indicada como depois das 7. O processo de evolução da humanidade dá-se exclusivamente pela repetição de dificuldades e ocasiões, e também pelo uso da memória e da lembrança, por mais infernal que tudo isso possa parecer ao personagem.

Dostoievsky publicou inúmeros contos: “O Mujique Marëi”, “O Sonho de um Homem Ridículo”, “Bobock” e outros, além de novelas: “O Senhor Prokhartchin”, “A Dócil”, “O Homem Debaixo da Cama”, “Uma História Suja”, “O Pequeno Herói”, “Uma Criatura Gentil”, “Coração Fraco” e “Noites Brancas”. Criou duas revistas literárias: Tempo e Época, colaborando ainda nos principais órgãos da imprensa russa.
Personagens
Provavelmente foi muito influenciado por tradições folclóricas. Algumas acreditavam que as águas de rios, mares e lagos representavam a fronteira entre o mundo dos vivos e o mundo dos mortos. Geograficamente, além do rio Neva, na Rússia, coexistem outros meios aquáticos, e por conta disso a cidade de São Petersburgo tornou-se fantástica e diabólica, o que influenciou a cultura popular e a literatura russa, sobretudo Dostoievsky.

Por consequência da influência que arrecadou através dessa cultura – onde o Homem está entre a vida e a morte – as personagens da sua literatura estão constantemente expostas a ocasiões complexas, nos limites da razão e da lógica, e naquilo que o ser humano é capaz de realizar diante de problemas universais; contudo, em geral, as personagens podem ser classificados em diferentes categorias: cristãos humildes e modestos (Príncipe Mishkin, Sonia Marmeládova, Aliosha Karamazov), autodestrutivos e niilistas (Svidrigáilov, Smerdiakov, Stavroguin, Maslobóiev), cínicos e libertinos (Fiódor Karamazov, Prince Valkorskij), intelectuais rebeldes (Rodion Romanovitch Raskólnikov, Ivan Karamazov), enquanto regidos por ideias e não por imperativos sociais ou biológicos.

Legado e influência
O russo Alexey Rémizov durante exílio em Paris, em 1927, escreveu: "A Rússia é Dostoievsky. Rússia não existe sem Dostoievsky”. A maioria dos críticos concorda que Dostoievsky, Dante Alighieri, William Shakespeare, Miguel de Cervantes, Victor Hugo e poucos outros escolhidos tiveram uma influência tão decisiva sobre a literatura do século XX, especialmente no existencialismo e expressionismo.

A influência de Dostoievsky é imensa, de Hermann Hesse a Marcel Proust, William Faulkner, Albert Camus, Franz Kafka, Yukio Mishima, Roberto Arlt, Ernesto Sabato e Gabriel García Márquez, para citar alguns autores. Na verdade, nenhum dos grandes escritores do século XX foram alheios ao seu trabalho (com algumas raras excepções, tais como Vladimir Nabokov, Henry James ou D.H. Lawrence). O romancista americano Ernest Hemingway também citou Dostoievsky numa das suas últimas entrevistas como uma das suas principais influências.

Nietzsche referiu-se a Dostoievsky como “o único psicólogo com que tenho algo a aprender: ele pertence às inesperadas felicidades da minha vida, até mesmo na descoberta de Stendhal”. Certa vez disse, referindo a “Notas do Subsolo”: “Chorei verdade a partir do sangue”. Nietzsche refere-se constantemente a Dostoievsky nas suas notas e rascunhos no internato entre 1886 e 1887, além de escrever diversos resumos das obras de Dostoievsky. “Um grande catalisador: Nietzsche e neo-idealismo russo”, disse Mihajlo Mihajlov.

Com a publicação de “Crime e Castigo” em 1866, Fiódor tornou-se num dos mais proeminentes escritores russos do século XIX, tido como um dos fundadores do movimento filosófico conhecido como existencialismo. Em particular, “Memórias do Subsolo”, publicado pela primeira vez em 1864, tem sido descrito como o trabalho fundador do existencialismo. Para Dostoievsky “A guerra é a revolta do povo contra a ideia de que a razão orienta tudo”.
Bibliografia
A Senhoria
O Adolescente
Aldeia de Stiepantchikov e os seus Habitantes
Crime e Castigo
Dnevnik pisatelya
O Eterno Marido
Gente Pobre
Humilhados e Ofendidos
O Idiota
Os Irmãos Karamazov
Netochka Nezvanova
Niétotchka Niezvanova
Noites Brancas
Notas do Subterrâneo
O Duplo
O Jogador
O Pequeno Herói
Os Demónios
Recordações da Casa dos Mortos

13 de abril de 2010

Fiodor Dostoievsky - II Parte

Carreira literária posterior
Depois de dez anos Dostoievsky voltou à Rússia. Na Sibéria chamou a experiência de “regeneração” das suas convicções, e rejeitou a atitude condescendente dos intelectuais que pretendiam impor seus ideais políticos sobre a sociedade, e chegou a acreditar na bondade fundamental da dignidade e do povo comum. Descreveu esta mudança no esboço que aparece em “O Diário de um Escritor” e no “Mujique Marei” “Sou filho da descrença e da dúvida, no presente e mesmo até à sepultura. Que terrível sofrimento me causou, e me causa ainda, a sede de crer, tanto mais forte na minha alma quanto maior é o número de argumentos contrários que em mim existe! Nada há de mais belo, de mais profundo, de mais perfeito do que Cristo. Não só não há nada, como nem sequer pode haver”.

Estudos médicos permitiram diagnosticar que Fiódor sofria de epilepsia temporal. As suas crises sistemáticas, que ele atribuía a “uma experiência com Deus”, tiveram um papel importante na sua crise religiosa e na sua conversão durante o desterro, quando a Bíblia era sua única leitura. Dostoievsky tornou-se num forte crítico do niilismo e do movimento socialista, e dedicou em seu livro “O Diário de um Escritor” para expor as ideias críticas ao conservadorismo socialista. Formou uma amizade com o conservador Konstantin Pobedonostsev e abraçou alguns dos princípios do Pochvennichestvo. Por este tempo começou a escrever “Recordações da Casa dos Mortos”, baseado nas suas experiências como prisioneiro.

Em 1859, após meses de árduo esforço, conseguiu ser libertado sob a condição de residir em qualquer lugar, excepto em São Petersburgo e em Moscovo, e assim, mudou-se para Tver. Conseguiu publicar “O Sonho do Tio” e “Adeia Stepánchikovo” mas essas obras não obtiveram as críticas esperadas por ele. Em Dezembro do mesmo ano, foi finalmente autorizado a regressar a São Petersburgo, onde fundou com seu irmão Mikhail a revista “Vremya” (Tempo), que no primeiro número publicou “Humilhados e Ofendidos”, também inspirada do seu trabalho na Sibéria. A sua obra “Recordações da Casa dos Mortos” foi um enorme sucesso quando então publicada em capítulos no jornal “O Mundo Russo”.

Entre 1862 e 1863, fez várias viagens pela Europa, incluindo Berlim, Paris, Londres, Genebra, Turim, Florença e Viena. Durante essas viagens teve um relacionamento amoroso fugaz com Paulina Súslova, uma estudante de ideias progressistas. Perdeu muito dinheiro no jogo e regressou à Rússia no fim de Outubro de 1863, sozinho e sem recursos. Durante este tempo o seu jornal tinha sido proibido, por publicar um artigo sobre a Revolução Polaca de 1863.
(continua)

Fiodor Mikhailovich Dostoievsky - Фёдор Миха́йлович Достое́вский - I Parte

Uma vez que tenho vindo a apresentar alguns escritores eslavos, não poderia deixar de apresentar um dos maiores (e o meu preferido) Dostoievsky.


Fiódor Dostoiévski, fotografado em 1879


Fiodor Mikhailovich Dostoievsky (Фёдор Миха́йлович Достое́вский) nasceu em Moscovo, a 11 de Novembro de 1821 e faleceu em São Petersburgo, a 9 de Fevereiro de 1881 e é um dos mais famosos escritores russos e dos maiores inovadores artistas de todos os tempos.

É tido como o fundador do existencialismo, concretamente com a sua obra “Notas do Subterrâneo”, descrito por Walter Kaufmann como a “melhor proposta para existencialismo já escrita”.

A sua obra explora a autodestruição, a humilhação e o assassínio, além de analisar estados patológicos que levam ao suicídio, à loucura e ao homicídio: a sua escrita é chamada por isso de “romances de ideias”, pela retractação filosófica e atemporal dessas situações. O modernismo literário e várias escolas de teologia e psicologia foram influenciadas pelas suas ideias.

Dostoievski, aos 17 anos, teve uma grande crise de epilepsia após saber que o seu pai tinha sido assassinado e deixou o exército cinco anos depois para dedicar-se integralmente à actividade literária. Dostoievsky passou a afastar-se das armas, mas acabou por envolver-se em conspirações revolucionárias, das quais passou pela prisão e pela condenação de morte, embora a pena tenha sido anulada. Alguns autores acreditam que essas dificuldades pessoais o ajudaram a afirmar-se como um dos maiores romancistas do mundo, mas de facto o seu reconhecimento como “escritor universal” só se verificou após 1860, com a publicação dos seus grandes romances: “O Idiota” e “Crime e Castigo”, este publicado em 1866, considerado por muitos como uma das mais famosas obras da literatura mundial.

O seu último romance, “Os Irmãos Karamazov”, foi considerado por Sigmund Freud como o melhor romance já escrito. Segundo o biógrafo Nicholas Berdiaiev, a obra de Dostoievsky é marcada pelo anticapitalismo, por uma reacção ao capitalismo selvagem, algo que parece tocar o leitor hoje”. A obra de Dostoievski exerce uma grande influência no romance moderno, legando-lhe um estilo caótico, desordenado e que apresenta uma realidade alucinada.


Primeiros anos
Fiódor foi o segundo dos sete filhos nascidos do casamento entre Mikhail Dostoyevski e Maria Fedorovna. Mikhail era um pai autoritário, médico no Hospital de pobres Mariinski, em Moscovo e a mãe era vista pelos filhos como um paraíso de amor e de protecção do ambiente familiar. Até 1833, Fiódor foi educado em casa, mas com a morte precoce da sua mãe por tuberculose em 1837 e a decorrente depressão e alcoolismo do pai, foi conduzido, com o irmão Fiódor Mikhail, à Escola Militar de Engenharia de São Petersburgo, onde começou a demonstrar interesse pela Literatura.

Em 1839, quando tinha dezoito anos, recebeu a notícia da morte do seu pai. Hoje é aceite, porém sem provas concretas, que o seu pai, foi assassinado pelos próprios servos na sua propriedade rural em Daravói, indignados com os maus tratos sofridos. Tal facto exerceu uma enorme influência sobre o futuro do jovem Fiódor, que desejou impetuosamente a morte do seu progenitor e em contrapartida se culpou por isso, facto que motivou Freud a escrever o polémico artigo “Dostoievsky e o Parricídio”.

Dostoievsky sofria de epilepsia e o seu primeiro ataque ocorreu quando tinha apenas nove anos. As suas experiências epilépticas serviram-lhe de base para a descrição de alguns dos seus personagens, como o príncipe Myshkin no romance “O idiota”, e de Smerdyakov na obra “Os Irmãos Karamazov”.

Início da carreira literária
Na Academia Militar de Engenharia, em São Petersburgo, Dostoievsky aprendeu matemática, uma disciplina que desprezava. Também estudou Shakespeare, Pascal, Victor Hugo e Hoffmann. Nesse mesmo ano, escreveu duas peças românticas, “Mary Stuart” e “Boris Godunov”, influenciado pelo poeta romântico alemão Friedrich Schiller. Dostoievsky descrevia-se como um "sonhador" na sua juventude e, em seguida, como um admirador de Schiller.

Em 1843, terminou os seus estudos de engenharia e adquiriu a patente de Tenente Militar, ingressando na Direcção-Geral dos Engenheiros, em São Petersburgo.

Em 1844, Honoré de Balzac visito-o em São Petersburgo, e Dostoievsky, como forma de admiração, fez a sua primeira tradução, “Eugenia Grandet” e saldou uma dívida de 300 rublos com um agiota. Esta tradução despertou a sua vocação, levando-o pouco tempo depois a abandonar o exército para dedicar-se exclusivamente à literatura. Trabalhou como desenhista técnico no Ministério da Guerra, em São Petersburgo. Também traduziu para Balzac e George Sand.

Alugou, em 1844, uma casa em São Petersburgo e dedicou-se à escrita de corpo e alma. Nesse mesmo ano, deixou o exército e começou a escrever sua primeira obra, o romance epistolar “Gente Pobre” trabalho que iria fornecer-lhe êxitos segundo a crítica literária, cuja leitura de Bielínski, o mais influente crítico da literatura russa, o fez acreditar ser Dostoievsky “a mais nova revelação do cenário literário do país”.

Segundo várias fontes, consta que quando escreveu “Diário de um Escritor” deu uma cópia para o seu amigo Dmitry Grigorovich, que a entregou ao poeta Nikolai Alekseevich Nekrasov. Com a leitura do manuscrito em voz alta, ambos ficaram extasiados pela percepção psicológica da obra. Às quatro horas da manhã, foram ter com Dostoievsky para lhe dizer que o seu primeiro romance era uma obra-prima. Nekrasov mais tarde entregou a obra a Bielínski. "Um novo Gogol apareceu!", disse Nekrasov. "Contigo, a primavera de Gogol nasce como cogumelos!". Bielínski respondeu a Dostoievsky.

"Saí da casa dele (Bielínski) em estado de êxtase. Parei por um instante na esquina da sua casa, olhei para o céu, para o luminoso sol , para as pessoas que passavam, e compreendi, no mais fundo do meu ser, que aquele tinha sido um momento solene na minha vida, um marco decisivo, que alguma coisa inteiramente nova havia começado". – Dostoievsky sobre as palavras de Bielínski, no “Diário de um Escritor

O livro foi publicado no ano seguinte, fazendo de Dostoievsky uma celebridade literária aos vinte e quatro anos de idade. Ao mesmo tempo, começou a contrair algumas dívidas e a sofrer de ataques epilépticos com mais frequência. Os seus romances seguintes, “Duas vezes” de 1846 e “Noites Brancas” de 1848, retratam a mentalidade de um sonhador, “Niétochka Nezvánova” de 1849 e “Inveja do Marido” e “Esposa de Outro”, não tiveram o êxito esperado, e sofreram críticas muito negativas, que fizeram com que Dostoievsky mergulhasse em profunda depressão. Nesta época entrou em contacto com alguns grupos de ideias utópicas, que procuravam a liberdade humana.


Exílio na Sibéria
Dostoievsky foi detido e preso a 23 de Abril de 1849 por participar num grupo intelectual liberal, sob acusação de conspirar contra o Nicolau I da Rússia. Depois das revoluções de 1848, na Europa, Nicolau mostrou-se relutante a qualquer organização clandestina que poderia pôr em risco sua autocracia.

Dostoievsky passou oito meses na prisão até que, em 22 de Dezembro, a sentença de morte por fuzilamento foi anunciada. Dostoievsky teve de situar-se em frente ao pelotão de fuzilamento com uma venda e até mesmo ouvir os seus disparos. No último momento, as armas foram baixadas e um mensageiro trouxe a informação de que czar havia decidido poupar a vida do escritor. A sua pena foi trocada por cinco anos de trabalhos forçados em Omsk, na Sibéria.

O príncipe Myshkin, de “O Idiota”, oferece várias descrições sobre essa mesma experiência. Após a simulação da execução, Fiódor passou a apreciar o próprio processo da vida como um dom incomparável e, ao contrário do determinismo e do pensamento materialista, o valor da liberdade, integridade e responsabilidade individual.

Durante esta altura, os ataques epilépticos aumentaram. Anos mais tarde, Dostoievsky descreveu o seu sofrimento ao seu ao irmão, dizendo que se sentia “um silenciado num caixão” e que o local onde estava “deveria já ter sido demolido à muitos anos”.

No verão, um confinamento intolerável, no inverno, um frio insuportável. Todos os pisos estavam podres. A sujidade no chão tinha uma polegada de espessura; alguém poderia tropeçar e cair… Éramos empilhados como anéis de um barril… Nem sequer havia um lugar para andar… Era impossível não nos comportarmos como suínos, desde o amanhecer até o pôr-do-sol. Pulgas, piolhos…” – Dostoievsky sobre o seu local na prisão.

Foi libertado em 1854 e condenado a quatro anos de serviço no Sétimo Batalhão, na fortaleza de Semipalatinsk, no Cazaquistão, além de soldado por tempo indeterminado. Apaixona-se por Maria Dimítrievna Issáievna, mulher de um conhecido. Com a morte do marido e já no ano seguinte, em Fevereiro de 1857, casam-se. Na noite de núpcias Dostoievsky sofreu uma violenta crise de epilepsia.
(continua)

26 de março de 2010

Literatura Polaca - Iluminismo na Polónia

A literatura Polaca foi muito influenciada pelo estreito contacto do país com a Europa Ocidental, sobretudo com a França e Inglaterra, durante o Iluminismo.

Escritores polacos foram inspirados em particular pela ideia de salvar a cultura nacional dos efeitos desastrosos de divisões e do domínio estrangeiros. O resultado foi o surgimento de teatros e drama, o periódico e do romance, e um interesse pela literatura popular e pelas suas formas específicas, como a balada.


A origem do drama polaco
O Drama foi tardiamente criado na Polónia, sob a influência do moderno teatro francês e italiano. O primeiro evento significativo foi a inauguração de um teatro nacional, em Varsóvia, em 1765. Os três principais dramaturgos do período foram Franciszek Bohomolec, cujas sátiras eram, muitas vezes adaptadas de Molière; Wojciech Bogusławski, que escreveu, uma ópera cómica popular nacional, “Cud mniemany czyli Krakowiacy i górale” (O Milagre fingido, ou Cracóvianos e Homens das terras altas), 1794 e Franciszek Zabłocki, que é importante pelo “Fircyk w zalotach” (O namoro dos Dandys), 1781, e “Sarmatyzm” (Caminhos Sármatas), 1785. As comédias de Aleksander Fredro surgiram quando o movimento do Romanismo estava em curso, e neles as influências de Molière e Carlo Goldoni são evidentes, como a sua “Zemsta”, (Vingança), 1834 amplamente ilustra. As peças de Fredro desempenha são notáveis para o brilhante "tipo" de caracterização, engenhosa construção e facilidade métrica.


Elemento Didáctico na prosa e poesia
A Didáctica permeava a maior parte do período da prosa escrita. Periódicos Modernos surgiram nesta altura “Monitor”, 1765-1785, e um dicionário polaco foi publicado entre 1807 e 1814.

Os trabalhos poéticos do Bispo Adam Naruszewicz, considerados em ordem cronológica, reflectem a transição do Barroco para o classicismo do Iluminismo. Escreveu também a história da Polónia na qual, modernos métodos de ensino foram utilizados.

Dois outros notáveis poetas foram Stanisław Trembecki, cujas obras são modelos de fluência estilística, e Kajetan Węgierski, livre pensador e admirador de Voltaire que é notório pela sua influência nas personalidades e nas modas.


Maior desenvolvimento da poesia lírica
Poetas líricos do Iluminismo incluem Franciszek Karpinski, que expandiu, sobre características do estilo barroco nos pastorais populares e músicas religiosas, e Franciszek Dyonizy Kniaźnin, cujo estilo evoluiu gradualmente a partir do barroco ao clássico, ele antecipou temas românticos da poesia popular, superstição popular, e da vida cigana (Rom).

A escrita de Julian Ursyn Niemcewicz foi inspirada pelo patriotismo e pela preocupação com a reforma. Ele conhecia exaustivamente a literatura inglesa e fez as primeiras traduções de baladas românticas inglesas, seu original “Dumy” (Baladas) foram as primeiras baladas literárias na Polónia. Também introduziu o romance histórico na Polónia com “Jan z Tęczyna” (Jan de Tęczyna), 1825, que mostrou a influência do escritor Sir Walter Scott. A sua comédia “Powrót posła” (O Regresso do Deputado), 1790, foi uma das melhores obras do período dramático, e “Śpiewy historyczne” (Canções Históricas), 1816, foi amplamente lida.

Após a perda da independência nacional, com a terceira divisão do país entre a Rússia, Áustria e Prússia em 1795-1796, a tradição da poesia patriótica foi continuada pelos soldado-poetas nas legiões polacas dos exércitos de Napoleão. Entre eles estava Józef Wybicki, cuja popular canção patriótica "Mazurek Dabrowskiego" (A Mazurka de Dabrowski), 1797 foi adoptada como o hino nacional em 1918.

O poeta mais importante desta época (na perspectiva europeia) foi o Bispo Ignacy Krasicki, (perspectiva europeia), o qual merece uma descrição mais detalhada que seguidamente apresento.


Ignacy Krasicki (Galícia, 3 de Fevereiro de 1735 — Berlim, 14 de Março de 1801)

Príncipe polaco da Igreja Católica Apostólica Romana, crítico social, escritor e poeta do Iluminismo da Polónia, saudado pelos seus contemporâneos como "o Príncipe dos Poetas."

O conde Krasicki nasceu numa família nobre empobrecida em Dubiecko, no sul da Polónia. Educado na escola dos jesuítas em Lwów e depois no Seminário Católico em Varsóvia entre 1751 e 1754, continuou seus estudos em Roma de 1759 a 1761.

Krasicki inicialmente era contrário à facção política, a "Família". Porém, após a vitória da Família nas "eleições livres" de Stanisław August Poniatowski como Rei da Polónia, em 1764, Krasicki tornou-se o novo confessor e capelão real. Participou dos famosos "Jantares das Quinta-Feira" de Stanisław August e foi o co-fundador do “Monitor”, jornal muito importante na época do Iluminismo polaco (jornal patrocinado pelo Rei).

Consagrado Bispo de Vármia em 1766, Krasicki tornou-se ao mesmo tempo um senador da República das Duas Nações.

Em 1772, como consequência da primeira divisão da Polónia, instigado pelo Rei da Prússia, Frederico II, "o Grande", Krasicki tornou-se um súbdito prussiano e enquanto mantinha estritos laços com a Polónia era também íntimo da corte de Frederico II. Comandou a inauguração da Catedral de Santa Edwiges, em 1773, que Frederico tinha mandado construir para os imigrantes católicos de Bradenburgo e de Berlim. Em 1786 o Bispo Krasicki foi escolhido para a Academia de Artes de Berlim (Akademie der Künste). A sua residência passou a ser o centro de desenvolvimento artístico.

Em 1795, seis anos antes de sua morte, foi promovido a Arcebispo de Gniezno e depois Primaz da Polónia.

Krasicki foi homenageado pelo Rei da Polónia com a Ordem da Águia Branca e pelo Rei da Prússia com a Ordem da Águia Vermelha.

Após seu falecimento, em 1801, Krasicki foi sepultado na Catedral de Santa Edwiges.


Obras

1775 “Myszeis” (O Idílio dos Ratos), alegoria à anarquia política (poema cómico-heróico)
1776 “Mikołaja Doświadczyńskiego przypadki” (As Aventuras do Sr. Nicolau Sabedoria)
1778 “Monachomachia” (A Guerra dos Monges), olhar espirituoso sobre a vida monástica
“Pan Podstoli” (Senhor Podstoli) – 1ª parte
1779 “Satyry” (Sátiras)
“Antymonachomachia”, primeiro romance polaco
“Bajki i przypowieści” (Fábulas e Parábolas)
“Historia” (História)
1780 “Wojna chocimska” (A Guerra de Chocim), sobre a Guerra de Khotyn
1784 “Pan Podstoli” (Senhor Podstoli) – 2ª parte
1802 “Bajki nowe” (Novas Fábulas)
1803 “Pan Podstoli” (Senhor Podstoli) – 3ª parte

Quando Ignacy Krasicki escreveu o primeiro romance polaco, em forma de diário, mostra claramente a influência de Jonathan Swift e Jean-Jacques Rousseau. Escreveu também numerosas obras literárias de carácter educacional e patriótico.
As suas obras são notáveis pela sua expressão concisa, formal elegância e destreza.

Literatura polaca - O Barroco na Polónia

O Barroco chegou à Polónia na segunda metade do século XVII. Em 1564 o cardeal polaco Stanislaw Hosius, uma das mais importantes figuras da Contra Reforma, convidou os jesuítas para se estabelecerem no país, e em breve a influência protestante, forte durante o Renascimento, começou a diminuir. Apesar de quase incessantes insurreições, a produção literária neste período foi bastante considerável. Na verdade, talvez espelhado, na sua estilística tensão, os conflitos externos que preocupavam o país.


Poesia
Um precursor da poesia barroca foi Mikołaj Set Szarzyński, que escrevia poesia predominantemente religiosa semelhante à dos poetas metafísicos ingleses. No período Barroco, as sátiras e os pastorais tornaram-se formas populares.

O primeiro dos satíricos foi Krzysztof Opaliński. A sua obra “Satyry albo przestrogi fazer naprawy Rządu i obyczajów w Polszcze należące” (Sátiras ou advertências sobre a Reforma do Governo e costumes na Polónia) de 1650, é amargo, pessimista em grande escala.

O pastoral foi representado por Samuel Twardowski, autor de “Daphnis drzewem bobkowym” (Daphne transformou-se numa árvore de louro) de 1638, e o romance “Nadobna Paskwalina” (Feira Pascal), de 1655, um conto de amor sagrado e profano no qual o Barroco polaco atingido o seu máximo esplendor. “Roxolanki” (Roxolania), de 1654, uma colecção de canções de amor de Szymon Zimorowic, e “Sielanki nowe ruskie” de 1663, escrito pelo seu irmão Józef Bartłomiej Zimorowic, introduziu elementos dramáticos na lírica tradicional pastoral; imagens de guerra e morte foram sobrepostos sobre aspectos de fundo pastoral, com efeitos macabros e típica incongruência barroca.

Um paralelo, mas menos formalizado género rústico produziu poesia celebrando a vida no campo. Um dos mais interessantes exemplos deste género, transformando-se numa imagem do século turbulento, é “Muza domowa” (Musa Doméstica) de 1652-1683, de Zbigniew Morsztyn, cuja maior realização foi na poesia religiosa.

A época foi caracterizada por uma ambição em escrever épicos heróicos - uma preocupação que pode ser explicada talvez por alguns acontecimentos históricos como as guerras contra os Cossacos, Russos, Suecos e Turcos. O poeta italiano Torquato Tasso que em 1581 escreveu, “Gerusalemme liberata” (Jerusalém Libertada), brilhantemente traduzido por Piotr Kochanowski, inspirou tentativas de obras épicas inspiradas em temas nacionais, designadamente o vigoroso “Wojna chocimska” (A Guerra de Chocim) de 1673, de Wacław Potocki. Outra obra épica, “Psalmodia polska” (Salmos Polacos) de 1695, de Wespazjan Kochowski, foi escrita em celebração da vitória de João Sobieski sobre os Turcos em Viena, em 1683, na qual Kochowski esteve presente.

Esse ciclo de salmos escrito em prosa, com a sua messiânica interpretação do destino da Polónia, tornou-se um modelo para os poetas românticos do século XIX.


Outras formas literárias
A prosa do período Barroco não subiu ao nível da sua poesia, embora houvesse uma grande riqueza de diários e memórias. As impressionantes memórias de Jan Chryzostom Pasek, um escudeiro do campo e soldado. O período também foi notável pelo aparecimento da carta como uma forma literária. As cartas de João Sobieski à sua esposa são notáveis pela sua paixão e ternura e pela experiência do seu dia-a-dia a ter em conta no combate e diplomacia. Outro interessante desenvolvimento foi o surgimento de uma literatura popular anónima, exemplificado pela “Komedia rybałtowska” (Comédias Blasfemas). Estes eram geralmente comédias satíricas populares e as grandes farsas escritas principalmente por dramaturgos de nascimento plebeu. Piotr Baryka é um destes poucos dramaturgos cujos nomes são conhecidos.

Escreveu uma comédia carnavalesca, “Z chłopa Król” (Dos Camponeses ao Rei) em 1637, que como o seu título indica, carregava um motivo tornado popular na introdução da peça de Shakespeare “A domesticação do musaranho” - a aparente atribuição de uma classificação nobre a uma pessoa de humilde nascimento.

Vários exemplos desse tipo de comédia, sobreviveram, e que incluem representações realistas de costumes populares e grotescas situações de paródia que em muitos casos, os temas nobres da literatura "oficial".

A última fase da literatura barroca, compreendida entre 1675 e 1750, marca um longo processo de declínio, interrompido apenas pelo surgimento das primeiras mulheres escritoras e pela grande figura de Stanislaw Konarski, um reformador da educação, a literatura e do sistema político.

Só em meados do século XX, é que a literatura do período barroco foi totalmente apreciada. Pode ser considerado como o estilo polaco mais duradouro, pois muitas das suas características são recorrentes no período Romântico e na escrita moderna.


Sarmatismo
Outra influência na literatura barroca polaca foi o Sarmatismo, estilo de vida dominante, a cultura e a ideologia da Szlachta (classe social de nobres) na República das Duas Nações do século XVI ao século XIX. Juntamente com a Liberdade dourada formou o aspecto único da cultura da República.

O historiador polaco do século XV, Jan Długosz, foi o primeiro a introduzir o termo que foi rapidamente utilizado por outros historiadores e cronistas como Marcin Bielski, Marcin Kromer e Maciej Miechowita. Outros europeus retiraram-no do “Tractatus de Duabus Sarmatiis” de Miechowita, um trabalho que na Europa Ocidental era considerado a principal fonte de informação sobre os territórios e pessoas da República das Duas Nações. O nome deriva dos alegados ancestrais da Szlachta, os sármatas, uma confederação da maioria das tribos iranianas do Norte do Mar Negro, desalojadas pelos godos no século II, descritas por Heródoto de Halicarnasso no século V a.C. como os descendentes dos citas e das amazonas.

Após muitas permutações, isto fez surgir a lenda de que os polacos eram os descendentes dos antigos sármatas, uma tribo guerreira originária da Ásia e que mais tarde se reorganizou no nordeste da Europa.

Esta crença tornou-se uma parte importante da cultura da Szlachta, penetrou em todos os aspectos de sua vida e serviu para diferenciar a Szlachta polaca da nobreza ocidental (cuja Szlachta se chamava Pludracy) e seus costumes. O conceito sármata serviu de culto à igualdade entre todos os membros da Szlachta, as tradições, o costume de andar a cavalo, a vida rural provinciana, a paz e o pacifismo, popularizou o uso de vestimentas e visual oriental (żupan, kontusz, pas kontuszowy, delia, szabla), serviu para integrar a multi-étnica nobreza ao criar um sentimento quase nacionalista de unidade e orgulho da política de Liberdade dourada da Szlachta.

Na sua forma inicial e idealizada o Sarmatismo pareceu ser um bom movimento cultural: incentivou a crença religiosa, a honestidade, o orgulho nacional, a coragem, a igualdade e a liberdade. Contudo como qualquer doutrina que coloca uma classe social sobre as demais acabou por modificar-se com o tempo. Por último, o Sarmatismo transformou a crença em intolerância e fanatismo, a honestidade em ingenuidade política, o orgulho em arrogância, a coragem em teimosia e a liberdade em anarquia.

O Sarmatismo, que evoluiu durante o Renascimento e se fortificou durante o Barroco polaco, achou-se em oposição ao Iluminismo na Polónia. Quando na segunda metade do século XVIII a palavra Sarmatismo fez a sua reaparição, o seu significado era decididamente negativo. Sarmatismo funcionava como sinónimo de uma mente retrógrada e ignorante e como um rótulo desprezível para os adversários políticos de Stanisław August Poniatowski, o rei das reformas: a provincial e tradicionalista intolerante Szlachta. Tais significados surgiram primeiramente no jornalismo e depois em trabalhos literários. Os escritores do Iluminismo trataram as implicações políticas e culturais do sarmatismo como um conveniente alvo para críticas e escárnio.

O “Jornal Monitor”, periódico de cunho reformista patrocinado pelo Rei Poniatowski, usava o termo de maneira pejorativa e assim fez Franciszek Zabłocki nas suas comédias, como na sua peça “Sarmatyzm” (Sarmatismo), de 1785).

Uma reabilitação do Sarmatismo e da antiga Szlachta começou durante o romantismo polaco, um tempo de revoltas militares e recordações associadas a eles, que com isso ajudaram na reabilitação do Sarmatismo, com seu culto à coragem e à bravura militar.

Isto ficou especialmente evidente durante e depois da Revolta de Novembro. O género de “Gawęda szlachecka” (A história de um nobre) escrito por Henryk Rzewuski está muito associado à reverência do espírito sármata. Visível no messianismo polaco e nas obras de grandes poetas polacos como Adam Mickiewicz “Pan Tadeusz”, Juliusz Słowacki e Zygmunt Krasiński, bem como escritores (Henryk Sienkiewicz e a sua “Trilogia), em geral, o romantismo polaco está em dívida com a história da Polónia de uma forma não observada nos outros países europeus, onde o contraste entre o passado glorioso e a miséria presente não foi citado, ou não existiu de facto.


Literatura sármata
O nome e a cultura tiveram reflexo na literatura polaca contemporânea. A cultura sármata foi retractada por muitos escritores contemporâneos, especialmente:

Wacław Potocki
Jan Chryzostom Pasek
Wespazjan Kochowski
Andrzej Zbylitowski
Hieronim Morsztyn
Jan Andrzej Morsztyn
Daniel Naborowski

O latim era muito popular e frequentemente era mesclado com o polaco (em escritos e discursos), resultando no latim macarrónico. Conhecer pelo menos um pouco de latim era uma obrigação para qualquer Szlachcic.

No século XIX a cultura sármata da República das Duas Nações foi retractada e popularizada pelo escritor polaco Henryk Sienkiewicz em sua trilogia “Ogniem i Mieczem, Potop, Pan Wolodyjowski”.

No século XX, a trilogia de Sienkiewicz foi transformada em filme, e a cultura sármata tornou-se objecto de muitos livros modernos (por Jacek Komuda e outros), canções (como a de Jacek Kaczmarski) e mesmo jogos de interpretação de papéis como “Dzikie Pola”.

De seguida apresento um dos escritores polacos que é conhecido pelas suas memórias “Pamiętniki”, sendo uma valiosa fonte histórica sobre a cultura barroca Sármata e os acontecimentos na República das Duas Nações.

Jan Chryzostom Pasek (Węgrzynowice, 1636 - Niedzieliszki, 1 de Agosto de 1701)

Jan Chryzostom Pasek foi um escritor e nobre da classe Szlachta, classe dos nobres na Polónia e no Grão-Ducado da Lituânia, cuja união dos dois países formou a República das Duas Nações.

Nasceu em 1636 em Węgrzynowice perto de Rawa Mazowiecka. Frequentou a escola dos jesuítas. Alistou-se no exército aos dezanove anos e durante onze anos foi soldado da República, onde lutou nas campanhas sob o comando do Comandante Militar Stefan Czarniecki contra a Suécia, na campanha da Dinamarca, participou da guerra e negociações com Moscovo (onde foi membro da missão diplomática), lutou na rebelião de Jerzy Sebastian Lubomirski e contra o Império Otomano.

Em 1667 casou e estabeleceu-se na sua propriedade em Małopolska. Devido a processos recebidos relativos aos seus constantes excessos e conflitos com vizinhos acabou por ser sentenciado ao exílio, mas a sentença nunca foi cumprida.

Quase no final da sua vida, entre 1690 e 1695, escreveu um diário autobiográfico, a qual uma cópia foi encontrada no século XVIII e impressa em 1821, o que fez de Pasek uma personalidade postumamente famosa.

Nas suas memórias, ele descreve em viva linguagem o quotidiano da vida da classe Szlachta, tanto no tempo de guerra quanto no de paz, com valiosas cenas de batalhas.

Relata as guerras suecas e moscovitas do século XVII, os catastróficos últimos anos do reinado do Rei João II Casimiro (1648-1668), o incompetente governo do Rei Michał Korybut Wiśniowiecki (1669-1673) e conclui a sua narrativa com o esplêndido reinado do Rei Jan III Sobieski (1674-1696). Na primeira parte do diário (1656 - 1666), Pasek descreve a vida militar, mostrando as motivações básicas dos soldados, como a curiosidade, o desejo de fama e riqueza e o descanso pelos ensinamentos religiosos.

Ao descrever a vida em tempo de paz (1667 - 1688), ele não considera problemática em relação aos actos de servidão e opressão da classe social camponesa. Representando a antiga cultura dos Sármatas, ele considera a classe social Szlachta como a única representante da República das Duas Nações.

Pasek faleceu a 1 de Agosto de 1701 em Niedzieliszki.

24 de março de 2010

Alexander Sergueievitch Pushkin

Alexander Sergueievitch Pushkin nasceu em Moscovo a 6 de Junho de 1799 e morreu em São Petersburgo, a 10 de Fevereiro de 1837.

Romancista e poeta russo da era romântica é considerado por muitos como o maior poeta russo. Fundador da literatura moderna russa, Pushkin foi pioneiro no uso do discurso vernacular nos seus poemas e peças teatrais criando um estilo de narrativa que misturava drama, romance e sátira associada com a literatura russa, influenciando fortemente os futuros escritores. Também escreveu ficção histórica, poemas, novelas e peças teatrais.

A sua obra “Marie: Uma História de Amor Russa” fornece uma visão da Rússia durante o reinado de Catarina, a Grande.

Entre as suas obras mais conhecidas encontram-se “Ievgueny Onieguin”, “O prisioneiro do Cáucaso”, “A história da revolta de Purgatiev” e o “Cavaleiro de Bronze”.

Biografia
O pai de Pushkin, Sergei Lvovich Pushkin (1767-1848), descendia de uma ilustre família da nobreza russa cuja linhagem conhecida remonta ao século XII. A sua mãe, Nadezhda (Nadja) Ossipovna Hannibal (1775-1836) descendia por parte da avó paterna das nobrezas alemã e escandinava. Era filha de Ossip Abramovich Gannibal (1744-1807) e a sua esposa Maria Aleksejevna Pushkina (1745-1818). O pai de Ossip Abramovich Gannibal, ou seja, o bisavô de Pushkin, foi Abraham Petrovich Gannibal (1696-1781), um escudeiro promovido por Pedro, o Grande, que nasceu na vila chamada Lagon, actual Eritreia. Após a sua educação em França como um engenheiro militar, Abraham Gannibal tornou-se governador de Reval e, posteriormente, general-chefe para a construção de fortes marítimos e canais na Rússia.

Aleksandre Sergueievitch Pushkin publicou o seu primeiro poema com 15 anos de idade e foi largamente reconhecido nos meios literários antes mesmo da sua graduação no Liceu Imperial, localizado no Tsarkoe Selo, a vila real de então.

Considerado o maior dos poetas russos e o fundador da literatura russa moderna, foi pioneiro no uso da língua coloquial nos seus poemas e peças, criando um estilo narrativo - mistura de drama, romance e sátira - como poeta, fazia uso de expressões e lendas populares, marcando os seus versos com a riqueza e diversidade do idioma russo.

Influenciou autores como Gogol, Liermontov e Turgeniev formando com os mesmos a famosa pleiade russa de autores. A Gogol, pela amizade e projecto mútuo de desenvolvimento de uma literatura autenticamente russa, Pushkin lega algumas ideias como a da peça teatral “O Inspector-geral”.

Devido às suas ideias progressistas, foi amigo de alguns dezembristas, responsáveis pela tentativa de golpe contra o Czar Alexandre I, por isso foi desterrado, vagueando, entre 1820 e 1824, pelo sul do Império Russo. Sob severa vigilância dos censores do estado e impedido tanto de viajar quanto de publicar, escreve a sua mais famosa peça, “Boris Godunov”, em que evidencia a influência de Shakespeare, o qual só pode ser publicada anos depois.

Escreveu o romance em verso, “Eugene Onegin”, um retrato panorâmico da vida russa e que, introduzindo elementos que o levou a designar o seu estilo como "romantismo realista russo do século XIX", depois musicado por Tchaikowsky, foi publicado em folhetins entre 1825 e 1832.

No decurso deste período, compôs diversos poemas de influência byroniana, dentre os quais se destacam “O prisioneiro do Cáucaso”, “A fonte de Baktchisarai” e “Os ciganos”.

Em 1826, recebeu o perdão do Czar, regressando a Moscovo. Dois anos depois, escreveu “Poltav”, uma epopeia que narra a história de amor do cossaco Mazeppa. Cultivando, cada vez mais, a prosa, alcançou um grande sucesso com obras como “Contos de Belkin”, “A Dama de Espadas” e “A Filha do Capitão”.

Pushkin e a sua esposa Natalya Goncharova, com quem se casou em 1831, tornar-se-iam regulares frequentadores da corte.

Em 1837, ao cair cada vez mais nos insistentes boatos de que a sua esposa mantinha um escandaloso caso extra-conjugal, Pushkin desafiou o dito amante, Georges d’Anthès, para um duelo. Mortalmente ferido em consequência deste, Pushkin morreu dois dias depois.

Por causa dos seus ideais políticos liberais e a sua influência sobre gerações de rebeldes russos, Pushkin foi retratado pelos bolcheviques como opositor da literatura e da cultura burguesas e um antecessor da literatura e da poesia soviética.

Nikolai Vasilievich Gogol


Nikolai Vasilievich Gogol (Николай Васильевич Гоголь), nascido em Velyki-Sorochyntsi, Ucrânia, a 20 de Março (1 de Abril) de 1809, e falecido a 21 de Fevereiro (4 de Março) de 1852 em Moscovo, é um dos mais conhecidos escritores russos de origem ucraniana. Apesar de muitos de seus trabalhos terem sido influenciados pela sua herança ucraniana, escreveu em russo e a sua obra é considerada parte da literatura russa.


Biografia
O seu pai, antigo oficial cossaco desenvolveu-lhe o gosto pela literatura, a sua mãe, de origem nobre polaca, transmitiu-lhe a fé religiosa, que veio a acarretar, até à beira da sua morte, num misticismo doentio.

Em 1820 Gogol foi para uma escola superior de arte em Nizhyn e lá permaneceu até 1828, tendo aí começado a escrever. Pouco popular entre os seus colegas, chamavam-lhe pejorativamente “misterioso anão”, mas com dois ou três deles formou amizades duradouras. Cedo desenvolveu uma disposição sombria e secreta, marcada por uma dolorosa auto-consciência e ambição sem limites, mas também um talento extraordinário para a mímica tornando-o mais tarde num incomparável leitor das suas próprias obras e induziu-o a brincar com a ideia de se tornar actor. Em 1828, terminada a escola, Gogol deixa a sua terra natal e vai para São Petersburgo, cheio de sonhos e esperança em obter fama literária.

Com ele levou um poema romântico da idílica vida alemã “Hanz Küchelgarten”. Publicou-o com o seu próprio dinheiro, usando o pseudónimo “V. Alov” mas todas as revistas para onde o enviou, recusaram publicá-lo. Gogol comprou todas as cópias e destruiu-as, jurando nunca mais escrever poesia.

A distância do seu país natal e a nostalgia que dela resulta inspirou a sua escrita. O contacto com Alexander Pushkin e a sua consequente amizade abriram o caminho para as letras como destino.

A vida de burocrata também teve influência sobre Gogol, mesmo sendo um simples empregado de escritório, esta experiência inspirou a sua magnífica novela, “O Capote” de 1843, cujo herói, “Akaki Akakievitch”, tornou-se o arquétipo do pequeno funcionário russo.

Logo depois, consegue um emprego como professor de História no Instituto Patriótico de Jovens Moças e em seguida na Universidade de São Petersburgo, de 1831 a 1835. Durante este período, publica numerosas novelas.

O seu grande amigo Pushkin pede-lhe que escreva uma comédia e Gogol passa horas a escrever detalhadamente uma ficção, usando a ironia para mostrar a forma com a qual o governo czarista fiscalizava a cobrança de tributos. Foi esta a ideia básica da peça teatral “O Inspector-Geral”.

Pushkin utiliza os seus contactos com a família real para ajudar Gogol a escapar à censura e abre todos os caminhos que tem ao seu alcance para que a peça possa ser encenada. Finalmente, em 1836, após a sua representação em são Petersburgo, conhece um real sucesso, aplaudida por liberais mas fortemente atacada por reaccionários.

Gogol sente-se incompreendido, irritado tanto por aqueles que o apoiam, como por aqueles que o criticam, pois todos simplificam e deturpam seu pensamento profundo, achando que ele ataca as instituições de uma maneira quase militante. De facto, a sua intenção não é outra senão a de denunciar os vícios e os abusos que se encontram no interior da alma humana. Fortemente desiludido, sai de São Petersburgo e empreende uma viagem pela Europa.

A morte de Pushkin no ano de 1837, num desinteressante duelo, abala profundamente Gogol, “Agora tenho a obrigação de concluir a obra cuja ideia era do meu amigo”, referindo-se naturalmente, a “Almas Mortas”, que continua a escrever. Em 1841 tenta publicá-lo em Moscovo mas o Comité Moscovita de Censura não autoriza. No ano seguinte, após uma intervenção de amigos do autor consegue ver o seu livro publicado. O romance é uma descrição da Rússia profunda, uma sátira, por vezes impiedosa mas que também guarda subjacente o profundo amor de Gogol pelo seu país.

Em 1848, faz uma peregrinação a Jerusalém. A pouco e pouco a sua saúde degrada-se e a sua percepção da doença faz com que acredite estar sempre mais doente do que de facto está, contribuindo para a exaltação do seu sentimento religioso, tornando-se cada vez mais místico.

De volta a Moscovo, redige a segunda parte de “Almas Mortas”, mas o seu estado físico e psíquico está bastante deteriorado. No início de Fevereiro de 1852, num momento de delírio (segundo dizem) queima na lareira do seu quarto, todos os manuscritos inéditos – inclusive o fim da segunda parte de “Almas Mortas”.

O romance é uma irónica mas belíssima obra sobre a corrupção de uma classe decadente que dominava o povo ignorante e escravo da Rússia, mas infelizmente, a sua conclusão nunca foi publicada. Da plêiade russa que desafiou o czar, resta apenas um jovem admirador de Pushkin, Liermontov e Gogol: Ivan Turgeniev, que viria a escrever obras importantes como “Pais e filhos” e ver o reconhecimento dos seus amigos apenas, após as suas mortes.

Ao dia 21 do mesmo mês, Nikolai Gogol morre, fatigado pelos jejuns.

Obtêm, após a morte, o reconhecimento único. O seu corpo embalsamado segue insepulto por mais de um dia, carregado por estudantes, que oferecem homenagem à memória do grande escritor e todos os que leram as suas obras queriam ver de perto a despedida do grande autor.
Está sepultado no cemitério de Novodevitchi, em Moscovo.

Bibliografia
1829 – Hanz Küchelgarten1831 – Noites na Granja ao Pé de Dikanka
1832 – Uma Terrível Vingança
1835 – O Retrato
1835 – Mírgorod
1835 – O Diário de um Louco
1835 – Arabescos
1835 – Vij
1836 – Taras Bulba (1ª edição)
1836 – O Nariz
1836 – O Inspector Geral
1842 – Taras Bulba (2ª edição)
1842 – O Capote
1842 – Almas Mortas

“Taras Bulba” de Nikolai Vasilievich Gogol


Extraordinário conto do escritor russo Nikolai Vasilievich Gogol, narra a épica luta dos resistentes ucranianos contra os invasores polacos, na qual se traça a figura marcante na personagem de um valoroso e velho cossaco e dos seus dois filhos.

De admiráveis contornos realistas, esta obra manifesta-se, ao primeiro alcance, como mais uma entre muitas épicas histórias de cossacos das estepes ucranianas, que se vêem confrontados com um inimigo mortal e que ao longo da narrativa o leitor é transportado, através de descrições alusivas às suas tradições, para o fantástico mundo da sua existência, das quais “Taras Bulba” faz parte por consanguinidade e analogia. As aventuras de “Taras Bulba” têm como pano de fundo as remotas e distantes estepes da Ucrânia. No intuito de preparar os filhos para a missão que os cossacos têm por tradição, o valente cossaco deixa para trás o lar e, com sede de peleja, parte com eles para se estabelecer no campo de treinos dos cossacos, o “Zaporojié”.

O conto retrata uma época distante, onde o Tártaro é visto como um potencial inimigo, tal como o invasor polaco, que aos olhos destes valentes guerreiros passa a ser o agressor da camaradagem e da fé cossaca.

O mais curto conto histórico de Gogol, tem duas versões, a primeira edição de 1835 é decididamente pró–ucraniana em temas e na história, a segunda edição de 1842 recebeu alguns acréscimos considerados pró–russos. O romance conta a história de um velho cossaco ucraniano “Taras Bulba” e dos seus dois filhos, “Andrei” e “Ostap”. Os filhos de “Taras Bulba” estudam na Universidade de Kiev e regressam a casa de férias. Daí os três homens viajam para a região de “Zaporizhia”, na Ucrânia, para se juntarem aos outros cossacos na guerra contra a Polónia.

A história de “Taras Bulba” é cheia de personagens que não são nem exagerados, nem grotescos, característica de todas as outras obras de Gogol. A história deve ser entendida à luz do movimento literário romântico nacionalista, desenvolvido à volta de uma cultura étnica, baseando-se nos ideais românticos.


Resumo
“Ostap” e “Andrei”, filhos de “Taras Bulba”, regressam a casa da universidade em Kiev onde estudaram.

O filho mais velho, “Ostap” é mais aventureiro, possui o verdadeiro espírito dos cossacos mas “Andrei” é profundamente romântico. Em Kiev, apaixona-se perdidamente por uma jovem nobre polaca, filha do Governador da cidade de Dubno, mas o curto namoro termina, quando a família da jovem regressa à sua cidade.

Como verdadeiro cossaco ucraniano, “Taras Bulba” pretende ver os seus filhos na guerra, pois os cossacos não eram considerados homens e não se casavam enquanto não terminassem o serviço militar. Os polacos, que ocupavam toda a parte da margem ocidental do rio Dniepre foram acusados de cometer atrocidades contra os cristãos ortodoxos, executadas com a ajuda dos judeus. Após o assassinato de alguns judeus nos arredores de Sich, os cossacos avançam contra o castelo de Dubno, e começam a cercar a cidade.

Uma noite, a empregada tártara da nobre polaca, pede a “Andrei” que ajude a salvar da fome, a família da sua namorada. Usando uma passagem secreta, “Andrei” leva pão à família da sua amada. Mais tarde ele trai os cossacos e passa para a parte polaca.

Numa das batalhas, “Taras Bulba” encontra “Andrei” vestindo o uniforme polaco e mata o seu próprio filho à queima–roupa dizendo: “Eu que te dei a luz matar-te-ei!”

O seu outro filho “Ostap”, após várias batalhas é capturado pelos polacos e prepara-se para ser executado em público.

Antes da execução, o judeu “Yankel”, a quem “Taras” salvou durante o massacre cossaco, concorda em levá-lo a Varsóvia para resgatar “Ostap”. Vestido como um conde alemão, “Taras” tenta salvar o seu filho da prisão, mas é reconhecido por um dos guardas, que o obriga a pagar 100 moedas de ouro para garantir a sua liberdade. Durante a execução, “Ostap”, como um cossaco que se preza não emite um único som, e apenas no fim pergunta retoricamente: “Pai, estás a ouvir-me?” Taras, escondido dentro da multidão responde que “Sim” e depois foge.

Os cossacos assinam a paz com os polacos, “Taras” mantém-se contra, pois perdeu os seus dois filhos por culpa dos polacos e obstinadamente leva o seu regimento para continuar a guerra contra a Polónia, mas é capturado em combate.

É atado a uma árvore e queimado vivo, gritando pelo Espírito de Rus.


Anti-Semitismo na obra
Na opinião dos escritores Felix Dreizin e David Guaspari no seu ensaio literário “The Russian Soul and the Jew: Essays in Literary Ethnocentricis” onde discutem o significado dos caracteres judaicos e da imagem negativa da comunidade judaica ucraniana no conto “Taras Bulba” de Gogol, afirmam que o apego de Gogol a preconceitos anti-judaicos, são prevalentes na cultura russa e ucraniana. No livro do escritor russo Leon Poliakov “The History of Antisemitism”, o autor refere que a personagem “Yankel” de “Taras Bulba” realmente tornou-se no arquétipo do judeu na literatura russa. Gogol retratou-o como sendo extremamente ridículo, explorador, cobarde, repugnante, mas demonstrando alguma gratidão, por esse motivo, é com alguma naturalidade que é encarado o seu afogamento pelos cossacos, no rio Dnieper.


Adaptação da obra no cinema
O primeiro filme, de 1909 é uma obra do cinema mudo, realizado pelo russo Aleksandr Drankov, o segundo, filmado em 1935 na Alemanha, pelo realizador também de nacionalidade russa Alexis Granovsky, o terceiro, em 1936 produzido pela Grã–Bretanha com o título de “The Rebel Son” (O Filho Rebelde). A produção americana de 1962, realizada por J. Lee Thompson, com famoso actor de origens húngaras, Tony Curtis no papel de “Andrei”. Em 2007, o realizador russo de origem ucraniana, Vladimir Bortko, reuniu vários actores ucranianos, russos e polacos para criar um épico da vida dos cossacos, um novo “Taras Bulba” adoptando a versão “pró-russa” de 1842. Filmado na Ucrânia, em locais como Zaporizhia, Khotyn e Kamianets-Podilskyi, com estreia marcada para o segundo semestre de 2009. Também na música, a obra de Gogol serviu de inspiração à criação de uma ópera pelo compositor ucraniano Mykola Lysenko e de uma rapsódia sinfónica para orquestra do compositor checo Leoš Janaček.

22 de março de 2010

Poeta russo Konstantin Simonov


O poeta Konstantin Simonov nasceu em Leningrado a 28 de Novembro de 1915 e faleceu em Moscovo a 28 de Agosto de 1979.

É famoso como romancista, dramaturgo e ensaísta. Coragem e patriotismo são os temas e motivos da sua poesia, ao lado de uma grande intensidade sentimental, o que, por vezes choca as sensibilidades mais cínicas, “sofisticadas” do Ocidente.

Na década de 40, tornou-se talvez no mais popular de todos os poetas soviéticos. O seu poema “Жди меня” - Espera por mim, de 1943, o canto do soldado na frente de combate, andava em todas as bocas e ainda hoje é um dos poemas mais conhecidos.

Em Fevereiro de 1942, enquanto os alemães se dirigiam para Moscovo, o jornal “Pravda” publicou-o e imediatamente conquistou o coração das tropas russas. Os soldados recortaram-no do jornal, copiaram-no enquanto estavam sentados nas trincheiras, aprenderam-no de coração e enviaram-no nas cartas às suas esposas e namoradas; foi inclusivamente encontrado nos bolsos dos casacos dos soldados mortos e feridos. Na história da poesia russa seria difícil encontrar um poema que tivesse tanto impacto nas pessoas como “Espera por mim”. Tornou o soldado soviético e o poeta russo Konstantin Simonov mundialmente famosos. Foi amplamente popular na altura e ainda nos dias de hoje permanece como um dos dois ou três mais conhecidos poemas da língua russa.

O poema foi dirigido à sua futura esposa, a actriz Valentina Serova bem como muitos outros poemas incluídos na colecção “Contigo ou sem ti”.

O poema expressa o conflito do poeta entre as maiores motivações do seu ser – o seu amor por Valentina e a sua devoção à Rússia. E por detrás de tudo isso, o sentido de acolher e disfrutar o que a sua situação lhe proporcionou, e o medo de saber que tipo de vida teria ele se estas duas poderosas motivações não o guiassem.

Жди меня
(versão do russo original)
Жди меня, и я вернусь.
Только очень жди,Жди,
когда наводят грусть
Желтые дожди,
Жди, когда снега метут,
Жди, когда жара,
Жди, когда других не ждут,
Позабыв вчера.Жди,
когда из дальних мест
Писем не придет,
Жди, когда уж надоест
Всем, кто вместе ждет.

Жди меня, и я вернусь,
Не желай добраВсем,
кто знает наизусть,
Что забыть пора.

Пусть поверят сын и мать
В то, что нет меня,
Пусть друзья устанут ждать,
Сядут у огня,

Выпьют горькое виноНа помин души...
Жди.
И с ними заодно
Выпить не спеши.
Жди меня, и я вернусь,

Всем смертям назло.

Кто не ждал меня, тот пусть
Скажет: - Повезло.

Не понять, не ждавшим им,
Как среди огня
Ожиданием своимТы спасла меня.

Как я выжил, будем знать
Только мы с тобой,
Просто ты умела ждать,
Как никто другой.


Espera por mim
(versão em português)

Espera por mim, que eu voltarei
Mas tens de esperar muito
Espera quando trouxer a chuva de Outono
tristeza trouxer,
espera quando a neve vier,
espera quando fizer calor,
espera quando os outros esperarem,
esquecidos do passado.
Espera, quando dos países distantes
cartas não chegarem,
espera, quando até se cansarem
aqueles que juntos esperam.

Espera por mim, que eu voltarei.
Não perdoes àqueles
que encontram palavras para dizer
que é tempo de esquecer.
E se crêem, filho e mãe,
que já não vivo,
se os meus amigos, cansados de esperar,
se sentam à lareira
e bebem vinho amargo
para me recordarem…
Espera. E com eles
não te apresses a beber.

Espera por mim, que eu voltarei
a despeito da morte.
Quem não me esperou,
que diga: “Teve sorte!”
Não compreendem os que não esperaram
como no meio do fogo
a tua espera
me salvou.
Como sobrevivi, saberemos
só tu e eu,
é porque me soubeste esperar
como ninguém mais.